O SORRISO DE MONALISA DE DA VINCI É VERDADEIRO?

Um sorriso toca de leve aqueles lábios. Enigmático, misterioso, dúbio.
Mona Lisa é irônica e ambígua? Triste e terna ou doce e compassível? Sua face é uma multidão de expressões.

Ao pintar a Gioconda, Leonardo da Vinci a circundou de músicos e bufões para apagar a melancolia de seu rosto, segundo conta Giorgio Vasari. O poeta e político Edgar Quinet apreciava nela o “sorriso semi-irônico da alma humana”, enquanto o historiador Jules Michelet a considerava um “mal hipnótico”. Para o ensaísta inglês Walter Pater, trata-se da própria eternidade, “imersa em mares profundos, conservando em torno de si a luz dos seus crepúsculos”.
O historiador da arte Ernst Gombrich acreditava ser impossível ter certeza do estado de ânimo com que nos olha.
Mas qual segredo torna tão mutável a expressão da Gioconda? Esta pergunta gerou rios de discussões. Em geral, as respostas basearam-se no pressuposto de que a ambigüidade se deve à técnica do sfumato (“esvaecido” ou, literalmente, “esfumado”, em italiano), que desfoca os cantos dos olhos e da boca dando ao quadro um ar de mistério. Mas há quatro anos Margaret Livingstone, neurobióloga da Faculdade de Medicina de Harvard, propôs uma nova explicação, publicada na revista Science e baseada nas diferenças da percepção da chamada “freqüência espacial” no interior do nosso olho. Trata-se de uma verdadeira medida de quanto é detalhada uma imagem: se para cada centímetro quadrado da tela de um computador há mais pixels (isto é, pontinhos que emitem luz), então a representação do objeto é mais detalhada. Ou, em outros termos, a freqüência espacial é mais elevada. Quando utilizamos a visão central (mirando diretamente o objeto), apreciamos sobretudo as imagens nítidas (freqüências elevadas), antes das mal definidas, enquanto a nossa visão periférica é mais apta a perceber os contornos esfumados.

Mona_Lisa

Assim, segundo Livingstone, quando não olhamos diretamente a boca de Mona Lisa, percebemos a parte “alegre” escondida nas baixas freqüências, isto é, no sfumato dos lábios. Mas, se direcionamos o olhar para os lábios, perdemos uma parte de seu sorriso e temos a impressão de que a expressão muda.
Muitos, porém, não consideram definitiva essa explicação, pelo menos até que sejam mais bem esclarecidos quais traços do rosto humano exprimem os sentimentos. Por exemplo, são os olhos que transmitem tristeza ou alegria? Ou é exclusivamente a forma assumida pelos lábios que veicula essas emoções?
Ao lermos poetas e romancistas, parece que tanto os olhos quanto a boca expressam emoções. Em Guerra e paz, de Leon Tolstoi, o sorriso de Natasha ao príncipe Andrei, que lhe pede uma dança, parece dizer “te esperei por uma eternidade”. Mas são inumeráveis os exemplos confirmando a idéia de que os olhos comunicam emoções. Para o poeta grego clássico Meleagro, Cupido lançava suas flechas do interior de seus olhos. Dante escreveu: “Minha dama carrega nos olhos Amor, / pelo qual se faz nobre o que ela mira” (“Negli occhi porta la mia donna Amore, / per che si fa gentil ciò ch\\`ella mira”). Herman Melville, em Moby Dick, faz Ismael dizer que nos olhos de Starbuck pairavam as “imagens daqueles mil perigos que ele afrontou tranqüilamente ao longo da vida”. As respostas da ciência foram construídas predominantemente sobre os estudos de Charles Darwin. No livro A expressão das emoções no homem e nos animais, Darwin buscou uma explicação do significado das expressões no reino animal, perguntando-se por que se apresentam em certas formas particulares. Segundo o pai da teoria da evolução, nos homens numerosas emoções têm uma expressão universal, isto é, são as mesmas independentemente de raça, cultura e nível de instrução. São inatas, e não adquiridas, um mero produto do nosso caminho evolutivo. Nós, humanos, temos uma gama de expressões complexas cujo significado, ao longo do tempo, se imprimiu na nossa mente. De forma análoga, os animais possuem expressões que lembram as nossas: os répteis, por exemplo, emitem sinais quando abrem a boca mostrando os dentes.

No início do século XX, os behavioristas puseram em dúvida a universalidade das expressões faciais dos estados emocionais, mas depois dos anos 50 alguns estudos confirmaram, sem margem a dúvidas, a existência de expressões universais. Em 1969, o anatomista Carl Hjortsjö descreveu em detalhe o efeito dos 23 músculos mímicos da face durante os estados emocionais. Com base nisso, ao fim dos anos 70, os psicólogos Paul Ekman e Vincent Friesen criaram o FACS (Facial Action Coding System, ou Sistema Codificador da Ação Facial), um elenco de todas as ações musculares associadas à expressão de uma dada emoção que inclui a medida da intensidade das contrações e da sua duração. Por exemplo, no caso de um sorriso de alegria, contraem-se o músculo zigomático maior, que ergue os cantos da boca, e o músculo orbicular do olho, que estreita as órbitas oculares.
Ekman e Friesen usaram depois esses dados para medir o grau de concordância das expressões entre os membros da tribo Fore, na Nova Guiné, e em americanos. Depois levaram em conta registros em vídeo e fotografias de expressões faciais efetuadas entre japoneses, brasileiros, chilenos e argentinos. Suas pesquisas confirmaram a concepção evolucionista de Darwin e constituíram a prova da universalidade para oito emoções: surpresa, tristeza, cólera, prazer, desprezo, nojo, vergonha e medo. Os estudos conduzidos nos últimos anos no campo das neurociências mostram que a amígdala, uma área do cérebro que representa um nó de contato entre os sinais cerebrais, contribui para o reconhecimento da sensação suscitada por uma face. Uma pessoa com essa estrutura em forma de amêndoa afetada não reage à visão de um rosto aterrorizado, e é incapaz de reconhecer expressões em que emoções como felicidade e surpresa estão misturadas.
Ainda assim, a amígdala não seria essencial para identificar as emoções: segundo alguns experimentos efetuados com PET (tomografia por emissão de pósitrons), um método de análise que permite visualizar o afluxo de sangue nas diversas estruturas do cérebro durante a execução de determinadas operações mentais, as faces alegres ou tristes provocam um aumento de atividade do giro do cíngulo. Parece também que a amígdala, ao contrário do córtex, não reage às expressões de nojo. Cabe, de qualquer modo, ao córtex frontal a maior parte das decisões conscientes: por exemplo, a interpretação de um sorriso que reclama discernimento, como no caso de Mona Lisa.

Mais recentemente, numa pesquisa publicada na Vision Research, os neurocientistas Leonid L. Kontsevich e Christopher W. Tyler voltaram a refletir sobre o problema das expressões e da ambigüidade do sorriso da Gioconda. Em particular, seu estudo visava dar resposta a um problema preciso: se são os lábios ou os olhos que comunicam a tristeza e a alegria. Com esse escopo, acrescentaram à face da Gioconda um “ruído”, uma espécie de “efeito neve” similar à interferência num televisor. Ligando e desligando de maneiras diversas e casuais os pixels sobrepostos à imagem, eram gerados diferentes tipos de interferência, que modificavam ligeiramente os traços de Mona Lisa, dando lugar a expressões distintas. Os pesquisadores pediram a 12 voluntários que classificassem 100 imagens (cada uma obtida sobrepondo uma interferência diferente) em quatro categorias: “triste”, “ligeiramente triste”, “ligeiramente feliz” e “feliz”. Ao fim, cada categoria era representada por uma única imagem, obtida “mediando” as alterações que geravam as imagens escolhidas pelos participantes para aquela dada emoção.


Para entender se a expressão de tristeza ou felicidade era atribuível aos lábios ou aos olhos, Kontsevich e Tyler removeram a interferência da parte inferior da face. Neste caso, a diferença entre as expressões, como resultado de uma média entre os observadores, resultava quase zero. Em outros termos, a informação não era comunicada pelos olhos. Mas, ao contrário, ao sobreporem a interferência somente na parte inferior da face, a diferença percebida na expressão dos olhos das duas imagens (idênticas na parte superior do rosto) era determinada pelo desenho dos lábios distinto.
Consultado sobre as implicações do seu experimento, Tyler afirmou que “seus resultados indicam que os olhos não veiculam emoções de tristeza ou felicidade, mas apenas intensificam o tom expresso pelos lábios. O \\`espelho da alma\\` é a boca: nós projetamos sobre os olhos o efeito induzido pela configuração dos lábios”. Segundo Tyler, além disso, a interferência tem um significado que transcende o próprio experimento: “Na Natureza existem muitas fontes de ruído: flutuações no número de fótons que atingem os receptores nos nossos olhos; falsas ativações dos pigmentos que absorvem os quanta de luz; flutuações no número de neurônios atingidos durante a transmissão de sinais visuais. Este \\`ruído natural\\` faz lembrar o sorriso apenas esboçado e sutilmente instável de Mona Lisa”.

 

Para Maria Teresa Cattaneo, psicóloga da Universidade de Milão que estudou por muito tempo as expressões faciais, o trabalho de Kontsevich e Tyler apresenta aspectos sujeitos a crítica: “Outros experimentos indicam que os observadores olham sempre o todo, e jamais um só elemento particular. O cérebro percebe o esquema da face, não uma parte”. Uma objeção a que Tyler rebate observando que “as anteriores teo-rias, inclusive a explicação de Margaret Livingstone sobre a ambigüidade do sorriso da Gioconda, não são corroboradas por provas decisivas e, sobretudo, não esclarecem as relações que se interpõem entre os olhos e a boca”.
Tradução de Eduardo Sterzi

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